quarta-feira, 23 de março de 2011

Hagiografia



A Matriz
do Senhor do Bomfim, onde Graciliano Ramos foi coroinha e aprendeu com a fé as vantagens do ateísmo.

Hagiografia

Morto o padre Manoel Joaquim da Costa (vulgo Mané Mole) - vigário da Paróquia de 1835 a 1848 -, em 1849 Viçosa ganhou o seu segundo pároco. Tratava-se de Francisco Manoel da Silva, a quem o povo, por insabidas razões, alcunhou de Padre Cabrites.

Com o fito de catequizar as almas hereges e manter viva a fé em Cristo naqueles que já a possuíam, Cabrites fincou pé e cruz na província. E aqui pôs-se a orar e trabalhar. E orou e trabalhou por longos trinta e sete anos, pois que só com sua morte - em 1886 é que se entregou ao luxo do cochilo eterno e definitivo.

Ficou conhecido na cidade o seu Sermão da Laranja. No púlpito e em alta voz, o padre afirmava que se dispuséssemos em nossas mãos de uma laranja e tivéssemos que repartí-la com nosso melhor amigo, necessariamente deveríamos ficar com a banda mais doce para nosso consumo e fornecer a parte mais amarga (ou menos adocicada) para nosso amigo predileto. E justificava: Deus ensina no Primeiro Mandamento a amar o próximo como a nós mesmos; nunca amar o próximo mais que a nós mesmos. E querer ser melhor que o próprio Deus é empreitada digna apenas dos amantes de Lúcifer.

Já idoso, o padre Cabrites era tido na conta de santo por inúmeras beatas que lhe invadiam a casa e, muitas vezes, a própria alcova. Dele, conta-se que ao fim da vida possuía seis amásias e doze ou quatorze guris, todos – elas e eles – possuidores da mais rígida e irrepreensível formação religiosa. Certa feita, questionado pelo bispo acerca de seus métodos nada ortodoxos, na disseminação da fé católica, padre Cabrites teria rebatido:

- Cada qual com suas maneiras, meu caro bispo. O senhor com suas sábias palavras, eu com minhas ações generosas. E, ademais, nem só de almas e de verbo vive o Senhor.

Francisco Manoel da Silva – o padre Cabrites – foi substituído após morrer pelo padre Francisco da Borja Loureiro – o Vigário Loureiro -, que, em início do século XX tentaria, infrutiferamente, manter nos domínios da fé o espírito do então coroinha e futuro romancista Graciliano Ramos.

Por Sidney Wanderley

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