quarta-feira, 30 de março de 2011

Jornalecos



Rua da Matriz, 25: casa onde morou Graciliano Ramos.

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Nascido em Quebrangulo (AL) a 27 de outubro de 1892 e tendo vivido até os sete anos na vila de Buíque, no vizinho estado de Pernambuco, já em 1899 a criança Graciliano Ramos aportava em Viçosa – “cidadezinha do país das Alagoas / terra de tanta coisa ruim / terra de tanta coisa boa”, no exato dizer do falecido folclorista Théo Brandão.
Sebastião Ramos, pai do romancista, intalou-se no comércio local com uma loja de tecidos, miudezas e ferragens situada na parte térrea do principal sobrado da praça Apolinário Rebelo – àquela época, praça do Comércio.
De início, a família fixou residência numa casa próxima à antiga cadeia, na rua do Joazeiro (atual Frederico Maia), mudando-se posteriormente para a rua da Matriz, quando então Graciliano se fez amigo dos filhos do farmacêutico Mota Lima – um dos quais, Pedro da Mota Lima, tornar-se-ia um dos grandes jornalistas brasileiros, e faria brilhante carreira nos jornais cariocas.
Em Infância,Graciliano relembra sem muitas saudades esses tempos: "Aos nove anos, eu era quase analfabeto. E achava-me inferior aos Mota Lima, nossos vizinhos, muito inferior, construído de maneira diversa. Esses garotos, felizes, para mim eram perfeitos: andavam limpos, riam alto, frequentavam escola decente e possuíam máquinas que rodavam na calçada como trens. Eu vestia roupas ordinárias, usava tamancos, enlameava-me no quintal, engenhando bonecos de barro...”.
Por esse tempo, o futuro romancista freqüentava a escola primária de dona Maria do O, onde percebeu com rapidez a diferença de tratamento que as professoras primárias dispensavam aos filhos dos coronéis e aos filhos dos destituídos de poder e prestígio na comunidade. E, não poucas vezes, suas mãos receberam o áspero e indesejado afago da palmatória, método didático muito apreciado no início do século. “O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos: cinco horas de suplício, uma crucificação... Não há prisão pior que uma escola primária do interior”. (Infância)
Aos domingos, o futuro ateu e militante comunista ajudava desajeitadamente ao padre Loureiro, durante a celebração da missa. E no tempo que lhe sobrava, o menino lia sofregamente romances de terceira e quarta qualidade...
Em 1904, sofrendo bem mais as influências literárias que geográficas do seu professor de Geografia – a exótica figura do poeta Mário Venâncio – Graciliano, ao lado de seu primo Cícero Ramos, fundaria um periódico intitulado O Dilúculo, com tiragem quinzenal de duzentos exemplares e divulgação restrita à província viçosense.
No número de estréia do jornaleco, o pseudônimo Ramos Oliveira (R.O.) assinava as primeiras linhas que mestre Graça fez publicar. Artigo fraco, miúdo, chinfrim, como o próprio autor mais tarde o definiria. Mas perdoável para uma criança de onze anos, criada entre “dois currais, o chiqueiro das cabras, meninos e cachorros numerosos soltos no pátio, cobras em quantidade”, tabefes paternos, cascudos maternos, indiferença e desprezo dos familiares. E, sobretudo, artigo já revelador de uma simpatia compreensiva e de uma sensibilidade aguçada para com o sofrimento e a miséria dos oprimidos terrenos, sensibilidade esta que se converteria na viga mestra e sustentadora de uma de suas futuras obras-primas – Vidas Secas (1938).
O escrito intitulava-se “O Pequeno Pedinte” e, posteriormente, no autobiográfico Infância, Graciliano se eximiria de parte dos pecados acaso cometidos em sua infância literária, atribuindo-os ao já citado poeta e professor Mário Venâncio:
"O Pequeno Mendigo (sic) e várias artes minhas lançadas no Dilúculo saíram com tantos arrebiques e interpolações, que do original pouco se salvou. Envergonhava-me lendo esses excessos do nosso professor: toda a gente compreenderia o embuste".
Segue-se o meloso artigo, datado de 24 de junho de 1904, e que sequer nos permite imaginar o escritor substantivo em que R. O. se converteria.

O PEQUENO PEDINTE

"Tinha oito anos!
A pobrezinha da criança sem pai nem mãe, que vagava pelas ruas da cidade pedindo esmolas aos transeuntes caridosos, tinha oito anos.
Oh! Não ter um seio de mãe para afogar o pranto que existe no seu coração! Pobre pequeno mendigo!
Quantas noites não passara dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto.
Quantas vergonhas não passara quando, ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o motejo!
Oh! Encontram-se muitos corações brutos e insensíveis!
É domingo.
O pequeno está à porta da igreja, pedindo, com o coração amargurado, que lhe dêem uma esmola pelo amor de Deus.
Diversos indivíduos demoram-se para depositar uma pequena moeda na mão que se Ihes está estendida.
Terminada a missa, volta quase alegre, porque sabe que naquele dia não passará fome.
Depois vêm os dias, os meses, os anos, cresce e paga a vida, enfim, sem tragar outro pão a não ser o negro pão amassado com o fel da caridade fingida".

Em toda a sua futura obra, creio que Graciliano não chegou a usar tantos adjetivos pomposos e tantas interjeições dispensáveis como neste escrito inicial.
Pouco tempo depois, inconsolável com um amor impossível e com uma amada inatingível, o poeta Mário Venâncio cometeria o suicídio - poucos dias antes do 16 de fevereiro de 1906, data em que o segundo e último número do segundo e último jornal que Graciliano fundou na província - Echo Viçosense - ia a público.
Tiveram vida efêmera as tentativas jornalísticas de mestre Graça na terrinha. Mas a previsão do suicida Mário Venâncio se confirmaria: Graciliano Ramos seria romancista. Mas – acrescente-se – de um estilo oposto ao do ídolo de Venâncio, o escritor Coelho Neto. À verborragia de Coelho Neto, mestre Graça haveria de contrapor sua prosa enxuta e substantiva, nordestina e universal; ao palavreado adiposo de Coelho Neto, Graciliano responderia com sua linguagem esquelética, falando sempre “com as mesmas vinte palavras”, no exato dizer do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto.
E a cidadezinha de Viçosa, na Zona da Mata alagoana, ficaria retida ainda por um bom tempo na memória graciliânica. Tanto que lhe forneceu o anti-herói Paulo Honório e algumas outras figuras humanas que povoariam as páginas de São Bernardo, três décadas mais tarde.

Por Sidney Wanderley

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